Publicado por: contemporanium | Novembro 13, 2008

o nariz russo

[o nariz] nicolai gogol, ed. l&pm, 2007

um sonho russo. apesar de ter sido publicado pela primeira vez em 1836, continua tão hype quanto as fotografias do david lachappelle ou os filmes do tarantino. não por isso, mas nicolai gogol (pronuncia-se gógol) pode ser considerado um dos precursores do surrealismo. o conto parece uma estória de bonequinhos de massinha. é simples, curto, fantasioso e alegre. narra o episódio de um burguês que um dia acorda e descobre que seu nariz misteriosamente desapareceu (não o seu; o dele). então, o cara sem nariz sai pelas ruas de são petesburgo na tentativa de encontrar o nariz. e o encontra. apressado e bem vestido, o nariz está lá andando no outro lado da rua. esses acontecimentos absurdos e bem articulados explicam por que gogol é um dos precursores do surrealismo. além de parte essencial do rosto humano, o nariz pode representar simbolicamente o orgulho. daí o conto ser lido como uma crítica comportamental intercalada por denúncias sociais da russia do século 19. olha, gogol era ucraniano, tá?

[melhor momento para ler] primeiro de abril

[para ouvir depois de ler] idem, móveis coloniais de acaju (2005)

[um bom presente para] catarinenses da cidade de joaçaba

[para aprofundar] o visconde partido ao meio, ítalo calvino

[trecho] “mas como!, exclamou, o senhor tem o topete de caçoar de mim! Não está por acaso vendo que me falta justamente o órgão com o qual se cafunga! ao diabo com o seu sujo tabaco! estou num estado que me leva a recusar o melhor rapé!”

[nota] ms

Publicado por: contemporanium | Novembro 10, 2008

antes de rayuella…

histórias de cronópios e de famas| júlio cortázar | civilização brasileira | 2007

livro surrealista que tira sorrisos. muito bacana pra quem quer começar a entender júlio cortázar e a revolução que fez na literatura argentina no século passado. foi publicado um ano antes de rayuella (!) e escrito na década de 50 em roma e paris. creio que o ambiente pós-totalitarismo dessas duas cidades ajudaram o autor a desenvolver um estilo humanitário, puro, intimista e agradavelmente provinciano presente nos contos que assina. os primeiros capítulos são manuais de instrução, pequenas prosas poéticas que ensinam como chorar, como subir escadas ou como matar formigas em roma. as histórias de cronópios e de famas (frase título da obra) estão nas últimas páginas do livro. nesta parte, cortázar, com muita originalidade, pureza e um surrealismo que beira o infantil, mostra por que é f*da na arte do conto curto. a criançinha vai gostar, a adolescente emo vai dizer que é fofo e qualquer pessoa com ensino médio completo vai dizer que o conto é ideologicamente político. os cronópios são criaturinhas alegres, inocentes e atrapalhadas que adoram cantar e recitar versos, mas são distraídas e vivem perdendo o que têm nos bolsos, são atropeladas e choram quando se sentem ameaçadas. já os famas são metódicos, racionais e adoram tirar vantagem, o que não impede, muito raramente, de sentirem compaixão pelos cronópios.

 

[melhor momento para ler] dia de finados

[para ouvir depois de ler] arnaldo antunes, saiba (2004)

[para aprofundar] rayuella, julio cortázar

[um bom presente para] enfermeiras, músicos, caixas de banco e aposentados

[melhores momentos] um cronópio vai abrir a porta da rua e ao enfiar a mão no bolso para pegar a chave o que tira é uma caixa de fósforos; então este cronópio fica muito aflito e começa a pensar que se em vez da chave ele encontra os fósforos, seria terrível que o mundo se houvesse deslocado de repente, e então se os fósforos estão no lugar da chave, pode acontecer que ele ache a carteira cheia de fósforos, e o açucareiro cheio de dinheiro, e o piano cheio de açúcar, e o catálogo de telefone cheio de música, e o armário cheio de assinantes (…)

[nota] ms

Publicado por: contemporanium | Novembro 9, 2008

transei e esqueci o nome

lucy3 [ geração t.e.e.n ] marty beckerman, ed. ediouro, 2005.

high school romance não conclusivo sobre a revolução sexual americana no período pós-11 de setembro. na narrativa, beckerman descreve uma sociedade hedonista que num primeiro momento curte e a longo prazo sofre as consequências de uma corrida por haxixe, ghb, festas, roupas da pike & crew e sexo desprovido de afeto. o que não significa dizer que é mais um daqueles livros moralistas e contra o sexo casual. o próprio autor (que hoje deve ter uns 25 anos) se inclui na geração 2000, que herdou dos pais a liberdade gerada pela pílula anticoncepcional e pelo movimento feminista. tecnicamente, marty beckerman é fraco. a incapacidade que o autor tem de descrever fatos é irritante. porém, os diálogos são bons. ele usa uma linguagem hype e muito bem sacada com ótimas piadas de humor sarcástico. o livro também faz referência ao cinema o tempo todo. os ambientes mudam como acontece nos filmes e por vezes parece que o que se lê é uma mistura de seriado americano com documentário jornalístico. a argumentação e a multilinguagem são outros pontos altos. os acontecimentos são permeados por estatísticas, trechos de estórias em quadrinhos, relatos de team leaders e artigos de jornais.

[melhor momento para ler] dia das crianças

[para ouvir depois de ler] bloc party, a weekend in the city (2007)

[para aprofundar] a mulher do próximo, gay talese

[trecho] - Ah, legal! Nunca entrei numa suíte de luxo! -Perfeito. Trevor colocou uma nota de vinte dólares no balcão para pagar os drinques. -A propósito, você não é uma adoradora de Satã tipo a Yoko Ono, né? (Trevor trocando primeiras impressões com uma garota asiática que acabara de conhecer)

[um bom presente para] trintões e graduandos em administração do ceub

[nota] mm

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